quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Brasil, País do Futuro ou um País do Futuro? - Stefan Zweig

Pouca gente sabe, mas existe um monumento em Salvador-Bahia em homenagem a Stefan Zweig. O monumento fica entre a praia da Barra e a praia do Porto da Barra. Quem foi Stefan Zweig, mesmo? Pois é, você já ouviu a frase: Brasil, País do Futuro? Com certeza, não é? Brasil, País do Futuro é o título de um dos livros mais famosos escritos sobre o Brasil e o autor é Stefen Zweig!!! Houve um pequeno equívoco na tradução. Um pequeno artigo, que fez e faz toda a diferença. Em alemão, o título do livro é: Brasilien, ein Land der Zukunft, que foi traduzido na época como: "Brasil, País do Futuro". A tradução correta teria sido: Brazil, um País do Futuro. O que quer dizer que ele nos via como um país do futuro, entre outros, e não o único país do futuro. O livro foi publicado em 1941 durante a ditadura de Vargas e da Segunda Guerra mundial. A crítica o acusou de ter escrito o livro como uma encomenda da ditadura de Vargas e a tradução do título em português, francês e espanhol, sem o artigo "um", levou a frase a ser usada como chacota por um longo tempo. Por causa da depressão em que ele entrou devido à guerra e às duras criticas, ele cometeu suicídio ao lado de sua esposa em uma casa em Petrópolis em 22 de fevereiro de 1942.




O que diz no monumento: 
Monumento a Stefan Zweig
Stefan Zweig nasceu em Viena, Áustria, em 1881. Escritor cosmopolita, tornou-se conhecido por suas análises do complexo psíquico e pela defesa dos ideais humanitários. Foi o autor mais traduzido do seu tempo. Pacifista, escrevia reinventando a vida.
Iniciou sua peregrinação pelo mundo em 1934, com residência na Inglaterra. Mudou-se em 1941, com sua esposa Lotte, para a cidade de Petrópolis - Brasil, onde escreveu seu livro mais conhecido, Brasil, País do Futuro, e finalizou sua auto-biografia, O Mundo Que Eu Vi.
Faleceu em  22 de fevereiro de 1942






Selecionei um trecho muito lindo do livro:

 "Quando, no ano de 1936, devia partir para Buenos Aires a fim de tomar parte no congresso do P.E.N.C., recebi convite para, aproveitando essa viagem, visitar o Brasil. Minhas expectativas não eram lá muito grandes. Eu tinha, sobre o Brasil, a idéia pretensiosa que, sobre ele, tem o europeu e o norteamericano, e tenho agora dificuldade de recordá-la. Imaginava que o Brasil fosse uma república qualquer das da América do Sul, que não distinguimos bem umas das outras, com clima quente, insalubre, com condições políticas de intranqüilidade e finanças arruinadas, mal administrada e só parcialmente civilizada nas cidades marítimas, mas com bela paisagem e com muitas possibilidades não aproveitadas — país, portanto, para emigrados ou colonos e, de modo nenhum, país do qual se pudesse esperar estímulo para o espírito. Uma visita de dez dias a tal país parecia-me suficiente para quem não é geógrafo, colecionador de borboletas, caçador, sportsman ou negociante. Demorarei lá oito ou dez dias e depois regressarei depressa, assim pensei, e não me envergonho de confessar esse meu modo insensato de pensar. Acho mesmo importante fazê-lo, porque ele é mais ou menos o mesmo que ainda é corrente nos círculos europeus e norteamericanos. O Brasil, no sentido cultural, ainda hoje é uma terra incógnita como, no sentido geográfico, o foi para os primeiros navegadores. Muitas vezes fiquei surpreso de ver que idéias confusas e deficientes, mesmo pessoas cultas e interessadas por coisas políticas, possuem sobre esse país que, indubitavelmente, está destinado a ser um dos mais importantes fatores do desenvolvimento futuro do mundo. Quando, por exemplo, a bordo, um negociante de Boston, de modo bastante depreciativo falou sobre pequenos países sulamericanos e eu tentei lembrar-lhe que só o Brasil compreende um território maior do que os Estados Unidos, julgou ele que eu estava gracejando e só se convenceu da minha afirmativa diante dum mapa. Encontrei num romance — de autor inglês muito conhecido — o engraçado pormenor de fazer o seu protagonista ir para o Rio de Janeiro a fim de nesta cidade aprender o espanhol. Mas esse autor é apenas um dos inúmeros indivíduos que não sabem que no Brasil se fala português. Todavia não compete a mim, está claro, fazer censuras pretensiosas a outros por seus poucos conhecimentos; eu próprio, quando parti pela primeira vez da Europa, nada, ou, ao menos, nada de seguro sabia sobre o Brasil.
     Deu-se então a minha chegada ao Rio, que me causou uma das mais fortes impressões de minha vida. Fiquei fascinado e, ao mesmo tempo, comovido, pois se me deparou não só uma das mais magníficas paisagens do mundo, nesta combinação sem igual de mar e montanha, cidade e natureza tropical, mas também uma espécie inteiramente nova de civilização. Aqui havia, inteiramente contra a minha expectativa, um aspecto absolutamente próprio, com ordem e perfeição na arquitetura, e no traçado da cidade, aqui havia arrojo e grandiosidade em todas as coisas novas e, ao mesmo tempo, uma civilização antiga ainda conservada de modo muito feliz, graças à distância. Aqui havia colorido e movimento; os olhos não se cansavam de olhar e, para onde quer que os dirigisse, sentia-me feliz. Apoderou-se de mim uma ebriedade de beleza e de gozo que excitava os sentidos, estimulava os nervos, dilatava o coração e, por mais que eu visse, ainda queria ver mais. Nos últimos dias da minha permanência no Brasil viajei para o interior ou melhor para lugares que julguei situados no interior. Viajei doze, quatorze horas para São Paulo, para Campinas, pensando com isso aproximar-me do coração deste país. Mas, quando de volta examinei o mapa, verifiquei que com essas, doze ou quatorze horas de viagem de trem apenas havia penetrado até um pouco abaixo da pele; pela primeira vez comecei a fazer idéia do incrível tamanho deste país, que propriamente já quase não deveria ser qualificado de um país, mas sim antes de um continente, um mundo com espaço para trezentos, quatrocentos, quinhentos milhões de habitantes e uma riqueza imensa sob este solo opulento e intacto, da qual apenas a milésima parte foi aproveitada. Um país em desenvolvimento rápido, mas apenas incipiente e, apesar de toda a atividade operante, construtiva, criadora, organizadora, um país cuja importância para as gerações vindouras não podemos calcular, mesmo fazendo as mais ousadas combinações. E com surpreendente velocidade desvaneceu-se a presunção européia que muito superfluamente trouxera como bagagem. Percebi que havia lançado um olhar para o futuro do mundo."
(Brasil, um País do Futuro)
Brazil, a land of the future - Stefan Zweig
A primeira impressão deste país é de uma opulência desconcertante. Tudo é intenso – o sol, a luz, as cores.
(Brasil, um País do Futuro)



Leia aqui o livro em português: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/paisdofuturo.html


Talvez, Stefan Zweig, estivesse predizendo o futuro, porque agora temos toda a chance de ser o que ele viu lá em 1941!!

Um comentário:

  1. Nossa Marcilia, parece que ele está descrevendo a sensação que tive na ocasião que estive no Rio de Janeio pela primeira vez! em 1996. Era uma felicidade, que não sei de onde vinha!

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